24 de jan de 2013

Sal e Luz

As bem-aventuranças falam do caráter do cristão, enquanto o sal e a luz ilustram a influência que devemos ter para o bem da sociedade em que vivemos. As pessoas descritas nas bem-aventuranças não parecem ser capazes de influenciar este mundo com humildade, mansidão, choro, e misericórdia. Além disso, os seguidores de Jesus são minoria e parecem muito frágeis para causar algum impacto naquela época e em nossos dias. Mas, Jesus não via assim os discípulos que escolheu.

5.13 Vós sois o sal da terra; ora, se o sal vier a ser insípido, como lhe restaurar o sabor? Para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. 5.14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; 5.15 nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa. 5.16 Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus. (Mateus 5.13-16).

Jesus sabia que sua igreja seria perseguida, mas ele manda que seus discípulos influenciem o mundo com amor e verdade chamando-os de sal da terra e luz do mundo. Ele fez uso de duas metáforas domésticas para falar da influência de seus discípulos no mundo. Essa influência só é possível porque os discípulos de Jesus vivem uma contracultura que os distingue do estilo de vida deste mundo. Por mais que isso pareça rude e impopular, é assim que é, e é assim que deve ser. Isso não quer dizer que os discípulos de Jesus sejam melhores que os outros, nem que a igreja não se mistura com a sociedade. Pelo contrário, os cristãos têm consciência que são eternamente carentes da misericórdia de Deus e amam as pessoas indistintamente sem nenhuma acepção. Desse modo viveu Jesus na terra, ao ponto de ser chamado de “amigo de pecadores”. Os discípulos devem ser como o Mestre - amigos de pecadores.

De um lado estão os discípulos como “sal”; de outro, está a “terra”. De um lado está a “luz”; de outro, está o “mundo”. Os dois lados se relacionam com as devidas diferenças. O mundo se deteriora, enquanto os discípulos exercem a função de conservação, ou retardamento da decomposição. O mundo vive em densas trevas, enquanto a igreja reflete a luz do mundo que é Jesus, que desfaz as trevas nas quais esse mundo está mergulhado. O sal deve manter sua salinidade, caso contrário, para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens. A luz deve brilhar, porque escondida se torna inútil.

O sal da terra (v. 13). Note que Jesus disse: “Vós sois o sal da terra”, não o sal do saleiro, do depósito, da vasilha. Ao contrário do que a “igreja evangélica” tem ensinado ao longo dos séculos, os cristãos devem se impregnar em todas as camadas da sociedade para conservarem os valores e impedirem a deterioração social, ou que seja pelo menos o retardamento da decomposição das pessoas que vivem longe dos caminhos de Deus. O sal só tem utilidade quando deixa o saleiro e se dissolve na panela no meio da comida. Ali ele faz a diferença e cumpre o que lhe é peculiar fazer.

Jesus não disse: “vós tendes sal”, ou, “falai vós do sal”. Não. Ele disse: “Vós sois o sal”. O sal está diretamente relacionado com o que somos e não com o que fazemos. Essa é a diferença entre andar com Jesus e a religião. O sal fala de nossa essência, de nosso perfil real. É o que somos que salga, que conserva, que influência, que dá sabor. A propriedade dessa salinidade é mostrada nas bem-aventuranças. Ali Jesus mostra o que é ser seu discípulo: Seguir Jesus é ser humilde, é chorar os próprios pecados, é ser manso, é ser faminto e sedento de justiça, é ser misericordioso, é ser limpo de coração, é ser pacificador, é ser perseguido por causa da justiça, não pela justiça. O que somos para Deus é o que faz diferença e não necessariamente o que fazemos para ele e para as pessoas. Talvez por isso mesmo foi que Jesus tenha dito: “Tende sal em vós mesmos e paz uns com os outros” (Mc 9.50).

Isso nos mostra que o sal deve conservar e dar sabor em todas as dimensões da vida, na família, no trabalho, enfim, em todas as relações com tudo e com todos. O sal mantém sua salinidade, mas, se ele vier a perder a propriedade de salgar “para nada mais presta senão para, lançado fora, ser pisado pelos homens”. O sal é bom, mas precisa salgar, e isso acontece em nossas vidas com nossas ações e com nossas palavras, como bem disse o apóstolo Paulo: “A vossa palavra seja sempre agradável, temperada com sal, para saberdes como deveis responder a cada um” (Cl 4.6).

É a diferença e não a identidade que influencia. Um dos males da igreja atual é fazer de tudo para agradar o mundo, é tornar tudo maleável, aceitável, e semelhante, para que seja evitada a rejeição por parte daqueles que não são igreja. Mas, é exatamente o contrário o que Jesus disse. A igreja deve entrar no mundo como o barco entra na água, sem deixar que a água entre no barco. O mundo precisa e quer a diferença que somente a verdadeira igreja de Jesus pode oferecer. E aqui não estou falando de igreja gueto, institucionalizada, de crentes fanáticos, religiosos que só sabem defender a placa de seu templo e sua denominação. Pelo contrário, estou falando de vida, de amor, de paz, de perdão, e tantas outras virtudes próprias daqueles que andam com Jesus e que tratam a todos com amor sem nenhum preconceito de nenhuma natureza.

A luz do mundo (vs. 14-16). Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo” e por derivação nós também o somos como luzeiros no mundo (Fp 2.15). Essa é uma distinção muito grande entre os discípulos de Jesus e os que ainda não têm essa consciência. Essa luz deve brilhar diante dos homens para que todos vejam as nossas boas obras e glorifiquem a nosso Pai que está nos céus. As boas obras do cristão abrangem tudo o que ele diz e faz.

Jesus disse: “Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte; nem se acende uma candeia para colocá-la debaixo do alqueire, mas no velador, e alumia a todos os que se encontram na casa”. A igreja é como uma cidade sobre um monte; não pode deixar de ser vista a noite, porque sua luz brilha para todos. Uma lâmpada sempre deve estar em evidência e não escondida, como os seguidores de Jesus que manifestam em suas vidas a luz do evangelho.

Como acontece com o sal e a luz, devemos nos dar para o bem dos outros, salgando e brilhando. O sal que dá sabor é o mesmo que arde na ferida. Jesus não disse que somos o mel do mundo; ele disse que somos o sal da terra. O cristão não é mundano quando se “esfrega” nas pessoas. Ele é mundano quando se isola no saleiro e se esconde debaixo de uma vasilha para não mostrar a sua luz. As metáforas do sal e da luz falam da influência do cristão, e essa influência tem a ver com o caráter dos discípulos de Jesus conforme as bem-aventuranças. Sem caráter cristão não há carisma conforme o evangelho.

Antonio Francisco - Cuiabá, 24 de janeiro de 2013 – Voltar para A vida extraordinária.

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