1 de mar de 2014

Entre a transfiguração e a possessão

Se pudesse acrescentar mais uma bem-aventurança na lista de Jesus, eu diria: “Bem-aventurados os equilibrados, porque deles é a vida saudável”. Jesus viveu esse equilíbrio e o povo reconheceu isso: “Tudo ele tem feito esplendidamente bem”. Isso é equilíbrio no modo de viver. A Bíblia diz que “melhor é o longânimo do que o herói da guerra, e o que domina o seu espírito, do que o que toma uma cidade”. Em outras palavras, esse é o fruto do Espírito Santo em nós: domínio próprio.

O equilíbrio esteve ausente em muitas ocasiões na vida dos discípulos de Jesus. Eles discutiam sobre qual deles era o maior, repreendiam os pais que traziam seus filhos para que Jesus os abençoasse, queriam pedir a Deus fogo do céu para destruir uma aldeia de samaritanos que não quis hospedar Jesus, proibiram um homem de expulsar demônios em nome de Jesus porque o homem não queria andar com eles, faziam juramentos precipitados, entre tantas outras demonstrações de falta de naturalidade, o que era tão visível na vida de Jesus.

Quando Jesus desceu do monte da transfiguração com Pedro, Tiago e João, esse equilíbrio foi requerido: “E, descendo eles do monte, ordenou-lhes Jesus: A ninguém conteis a visão, até que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos”. Essa ordem de Jesus era tudo o que os discípulos não queriam ouvir depois daquela noite única, diferenciada e cheia de glória no monte. Eles queriam chegar lá em baixo e contar tudo detalhadamente para os outros apóstolos. Mas Jesus lhes disse para ficarem calados sobre a visão. Como isso é tão diferente do que acontece hoje quando as pessoas fazem turnê pelo país para contar sonhos e coisas sem expressão. Anunciar o Evangelho não é o mesmo que anunciar nossas experiências.

Por que Jesus pediu que eles não divulgassem as coisas que tinham visto? Não sabemos exatamente a razão, exceto pelo motivo apresentado junto com a ordem, “ate que o Filho do Homem ressuscite dentre os mortos”. Alguns dias ou semanas eles teriam que aguardar antes de compartilharem a experiência no monte. Mais de uma vez Jesus falou que certas coisas não devem ser contadas até que a ocasião seja oportuna. Mas, cabe perceber aqui um princípio espiritual excelente. A única maneira de manter a glória de Deus dentro de nós é não divulgá-la como virtude ou mérito próprio. Ninguém precisa saber de minha intimidade com Deus a não ser que ele queira que eu fale para outros, caso contrário, devo me manter calado quanto a isso. E, quando o tempo de falar chegar, que a notícia seja para todos, como foi o anúncio da ressurreição de Jesus: "Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura".

O reino de Deus está dentro de nós, e é impossível esconder as evidências dessa realidade viva. Jesus disse: “Quem crer em mim, como diz a Escritura, do seu interior fluirão rios de água viva”. Isso ele disse com respeito ao Espírito Santo que produz o seu fruto de amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio, na vida de todo aquele que se deixa guiar por ele. A transfiguração ilustra a glória de Deus que se mantém na vida do discípulo de Jesus. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que a excelência do poder seja de Deus e não de nós. Em tudo somos atribulados, porém não angustiados; perplexos, porém não desanimados; perseguidos, porém não desamparados; abatidos, porém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus, para que também a sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vivemos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste em nossa carne mortal”. A glória da transfiguração não depende da impressão da multidão.

Os discípulos não questionaram a ordem de Jesus de não falarem da visão, mas perguntaram sobre a profecia que falava da vinda de Elias. Jesus confirmou a profecia dizendo: “De fato, Elias virá e restaurará todas as coisas. Eu, porém, vos declaro que Elias já veio, e não o reconheceram; antes, fizeram com ele tudo quanto quiseram. Assim também o Filho do Homem há de padecer nas mãos deles. Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista”. A palavra sobre Elias se refere a João Batista devido à semelhança de ministérios entre eles. Jesus disse que João restaurou todas as coisas, mas não o reconheceram e fizeram com ele tudo o que quiseram, assim como aconteceu com ele (Jesus) que veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Não ter aceitação popular não desqualifica o discípulo.

A profecia de Isaías dizia: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do SENHOR; endireitai no ermo vereda a nosso Deus. Todo vale será aterrado, e nivelados, todos os montes e outeiros; o que é tortuoso será retificado, e os lugares escabrosos, aplanados. A glória do SENHOR se manifestará, e toda a carne a verá, pois a boca do SENHOR o disse”. Mas, o que João endireitou, que vales ele aterrou e que montes ele nivelou? O que tortuoso ele retificou e que lugares escabrosos ele aplanou? João parece ter passado em branco aos olhos dos homens, mas a glória estava dentro dele como uma lâmpada que ardia e alumiava.

É assim que a glória da transfiguração se mantém dentro do discípulo. Ele não se preocupa com as impressões humanas e não depende do que pensam dele, desde que cumpra o ministério que Deus lhe deu e muitos não reconhecem isso, mas Deus vê como Jesus reconheceu João Batista. Ele não fez nenhum sinal, porém tudo quanto disse a respeito de Jesus era verdade. Desse modo os discípulos fiéis cumprem a vontade de Deus, mesmo que os homens não os reconheçam: “como desconhecidos e, entretanto, bem conhecidos; como se estivéssemos morrendo e, contudo, eis que vivemos; como castigados, porém não mortos; entristecidos, mas sempre alegres; pobres, mas enriquecendo a muitos; nada tendo, mas possuindo tudo”. O discípulo precisa apenas ser sal da terra e luz do mundo. Isso basta.

Quando chegaram para junto da multidão, Jesus, Pedro, Tiago e João, depois de descerem do monte da transfiguração, encontraram os outros discípulos sendo questionados pelos escribas e impotentes diante de um pai desesperado que pedia pela cura de seu filho possesso de um demônio que o atormentava. Jesus censurou os escribas e lamentou a incredulidade dos seus discípulos. Depois de expulsar o demônio do menino os discípulos quiseram saber por que não puderam expulsar o demônio. Jesus disse que foi pela falta de fé deles. Quando disse que aquela casta não é expelida senão por meio de oração e jejum, ele falava mais dos discípulos do que do demônio. Eles precisavam se quebrantar e não depender de fórmulas ou acharem que pelo fato de andarem com Jesus os demônios lhes atendia mecanicamente sem fé.

Entre a transfiguração no alto do monte e a possessão do menino no vale o discípulo precisa aprender que andar com Jesus implica saber conviver com a glória e a impotência, que a transfiguração está dentro de nós e não depende de holofotes humanos para ser autenticada, que o seguidor de Jesus não deve perder tempo com discussões religiosas nem cair nas ciladas do diabo que sempre querem tirar o foco da vida interior no espírito. O discípulo vive entre a glória interior e a dor de quem não conhece ainda a vida com Deus. Por isso, ele precisa viver pela fé no equilíbrio que o Evangelho apresenta. A glória da transfiguração deve continuar em mim, para que no vale eu possa sem exibição amar e ajudar quem precisa de libertação.

Antonio Francisco - Cuiabá, 1 de março de 2014 – Voltar para Como ser discípulo de Jesus.