15 de fev de 2014

O discípulo nega a si mesmo

Um dos piores erros do cristianismo histórico e das igrejas é passarem uma impressão negativa sobre o andar com Jesus. Para esses seguir Jesus é um sacrifício que deve acontecer todos os dias. Há até quem fique em crise quando tudo está bem porque o discípulo de Jesus tem que sofrer e viver uma autonegação permanente para poder agradar a Deus. Nada poderia ser mais patético e contrário ao Evangelho que isso. Ser discípulo de Jesus não é se anular, mas se afirmar.

Já vimos que o discípulo é um seguidor de Jesus que vai atrás bem juntinho, não ultrapassa nem fica parado no caminho entretido com as coisas desta vida e da religião. O discípulo não inventa moda nem moveres porque é movido pelo Espírito Santo conforme o Evangelho. O discípulo recebe do Senhor e entrega o que recebeu sem tirar e sem acrescentar. O discípulo é livre, inclusive para não seguir Jesus, se o segue é porque quer e pela consciência que tem de quem ele é e de quem é Jesus. Quando o discípulo descobre o tesouro da vida em Jesus, ele troca tudo o que tem pelo campo do discipulado para viver pela fé recebendo da plenitude de Deus graça sobre graça sendo transformado de glória em glória na imagem de Jesus.

Jesus disse: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue”. Será que ele estava dizendo que devemos nos anular para segui-lo? Será que o discípulo deixa de ter vontade própria quando se torna seguidor de Jesus? O que significa negar a si mesmo? Será que Jesus está falando para nós o que os nossos pais diziam quando éramos crianças: “menino não tem querer”. É isso? Se for isso, realmente ser crente é uma lástima. Se, ser discípulo de Jesus é não expressar vontade, é não ter querer, então é melhor ser budista e mergulhar no nirvana, suprimindo todos os desejos e consciência pessoal. Assim o discípulo vegeta.

Quando eu me converti em 1978, negar a mim mesmo era abandonar tudo o que eu gostava de fazer: jogar bola com meus colegas descrentes no campinho do bairro, não ir mais aos bailes, não tomar bebida alcoólica, não namorar moça que não fosse da igreja, e muitas outras negações. Aprendi na igreja o que não fazer; só não me disseram o que fazer para ser de Jesus. Não se pode negar que há um tempo quando o negar a si mesmo é deixar de fazer certas coisinhas infantis; isso se dá quando o crente ainda está engatinhando na fé, mas isso passa logo, se não passar o crente vira religioso traumatizado, que é o que tem muito por aí.

Negar o si mesmo, não é negar o eu, é negar o egoísmo. O si mesmo são as fantasias que incorporamos e que devem ser abandonadas; devem morrer todo dia em nós. O si mesmo é tudo o que chamo de eu e que não sou eu. O si mesmo é feito dos acessórios que grudam a nós ao longo da vida como resultado de traumas, decepções, ilusões, iras. O si mesmo ostenta nossa bagagem cultural, familiar, ética, moral, emocional, e tudo o mais que vira crosta em nós, mas que não faz parte do nosso ser essencial. O si mesmo é mundano, é inimigo de Deus.

Depois de mandar negar a si mesmo, Jesus disse: “Porquanto, quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por minha causa achá-la-á. Pois que aproveitará o homem se ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca da sua alma?” Aqui Jesus explica o significado do si mesmo. Quem quiser salvar o si mesmo vai perdê-lo; e quem perder o si mesmo por Jesus vai achar a vida. Quem quer ganhar o mundo inteiro? O si mesmo. Ele quer transformar pedras em pães e aceita pular do pináculo do templo.

O si mesmo quer ganhar o que a Bíblia chama de “curso deste mundo”, “não vos conformeis com este século”, e “não ameis o mundo nem as coisas que há no mundo”. Mas é isso que o si mesmo quer. A teologia da prosperidade que grassa nas igrejas por toda parte é filha do si mesmo que é egoísta e que sempre cogita das coisas dos homens e nunca das coisas de Deus. Os que estão no si mesmo não podem agradar a Deus. O si mesmo só pensa em conquistar, possuir, ser promovido, ser o melhor, ser cabeça e não cauda, andar na moda, ser bem sucedido, ser elegante, inteligente, ser aprovado. Sem tudo isso o si mesmo se deprime.

O si mesmo é uma persona que se associa ao nosso eu; ela se chama legião porque é composta de muitos “eus” que impedem que o eu verdadeiro criado à imagem e semelhança de Deus viva plenamente. O si mesmo é o que a Bíblia chama de “natureza terrena”. As obras da carne: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, são o perfil facebookiano do si mesmo que adora um perfil falso nos outdoors da vida.

O si mesmo deve ser negado todo dia o dia todo, para que a pessoa possa ser ela mesma, sem vícios, manias, medos doentios, preconceitos, tabus, e todas as fantasias ilusórias que fazem a gente pensar ser o que não é. Muitas pessoas morrem sem conhecerem elas mesmas porque viveram a vida toda no si mesmo. Quanto mais a pessoa segue a Jesus e vive o Evangelho, mais livre ela se torna porque o si mesmo vai minguando e perdendo força e expressão. Mas, ninguém se iluda, porque o si mesmo é como o rabo da lagartixa, você o corta e ele continua se mexendo, é como barba feita que volta a aparecer no dia seguinte, é como o bicho na goiaba que aparece sem que a gente saiba como numa fruta saudável.

Como eu disse antes, os que estão no si mesmo não podem agradar a Deus. Exatamente por isso, quem quiser ser discípulo de Jesus deve abandonar sua religião, deve romper com o fermento dos fariseus e dos saduceus, pois religião e Evangelho não é a mesma coisa. Os evangélicos nunca entenderão isso até que deixem o que chamam de igreja mas que não é igreja conforme o Novo Testamento. Os odres da religião não suportam o vinho novo do Evangelho. Isso não é verdade apenas para as seitas e religiões não cristãs; isso vale igualmente para as igrejas evangélicas feitas de si mesmos que não vivem o Evangelho.

Por incrível que pareça, a maioria dos crentes vive no si mesmo querendo transformá-lo em testemunho para Deus. É por isso que o ambiente de igreja é um dos piores lugares para se relacionar, porque ali o si mesmo se aflora em nome de Deus, é carne querendo ser espírito quando a Bíblia diz que "os que estão na carne não podem agradar a Deus". Agora imagine aquele universo de testemunhos, ensaios para Deus, coreografias, relatórios, cuidar da casa de Deus, assiduidade, trabalhar para Deus, tudo feito pelo si mesmo. É um Deus nos acuda que nunca terá o cuidado de Deus porque Deus não aceita o si mesmo.

Alguém pergunta: Como se livrar do si mesmo? A resposta é: Essa é uma companhia não grata que vai nos acompanhar por toda a vida. É por isso que o discípulo toma dia a dia a sua cruz. A Bíblia diz: "o seu desejo será contra ti, mas a ti cumpre dominá-lo", "fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena". Mas, nada se compara à dimensão de ser discípulo de Jesus. Quando Paulo adquiriu essa consciência, ele considerou o seu curriculum vitae religioso como lixo para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo justiça própria, que procede de lei, senão a que é mediante a fé em Cristo, a justiça que procede de Deus, baseada na fé. Negue ao si mesmo e seja você mesmo. Você verá que sem o si mesmo o seu eu é lindo na luz do Evangelho.

Antonio Francisco - Cuiabá, 15 de fevereiro de 2014 - Voltar para Como ser discípulo de Jesus.