1 de out de 2013

A obsolescência da igreja evangélica

Não viverei para ver, mas certamente a igreja evangélica como é conhecida hoje vai se acabar, ou pelo menos ser reduzida de tal maneira que não terá mais nenhuma expressão. Isso não é praga, maldição, ou desejo do meu coração, mas, tão somente a constatação do que já é tão evidente. Isso só não acontecerá totalmente porque sempre existiram e existirão pessoas que dependem do curral da religião nos moldes do cristianismo histórico e das ditas igrejas evangélicas. Mas, a casa vai cair.

Jesus falou que os odres velhos da religião engessada não suportam o vinho novo do evangelho, nem os panos velhos do formalismo e legalismo suportam remendo de pano novo. Mesmo assim o cristianismo tem sido há mil e setecentos anos essa gaiola religiosa e as igrejas evangélicas viraram essa coisa feia, inaceitável e contradizente com Jesus.

Há duzentos anos alguém disse que “a igreja tem vinte quilômetros de extensão e dois centímetros de espessura”. Ou seja, tem muito trovão e pouca chuva no meio evangélico, diversão, agitação, ativismo, mas, pouca vida com Deus. Não há profundidade espiritual no chão das igrejas. O povo é ralo e sem vivência, sem experiência e sem conhecimento de Deus; e quando falo em conhecimento não estou me referindo a conhecimento bíblico, pois nem isso os crentes têm, a maioria é analfabeta de Bíblia, mas me refiro ao conhecimento pessoal e relacional com Deus. Sei o que é a igreja evangélica há mais de trinta anos e constato que ela piora cada vez mais. Por isso mesmo a abandonei como uma das melhores coisas que fiz na vida, porque me convenci que não é possível ser do evangelho e ser evangélico conforme as igrejas evangélicas, pelo menos no Brasil em que vivo e conheço.

Se por um lado as igrejas crescem (incham) numericamente com pessoas que negociam como se Deus fosse um negócio de troca de favores, uma mídia; por outro lado, as igrejas cada vez mais perdem membros, seja porque nunca foram cristãos de fato, seja por acordarem para a realidade de que ser do evangelho não combina com a igreja evangélica. A verdade é que cada vez mais cresce o número de pessoas que não querem nada com igreja, o que não significa que não querem nada com Deus. Já foi atestado que mais de noventa por cento das crianças que frequentam regularmente as escolas bíblicas dominicais abandonam a “igreja” quando deixam a casa dos pais. Aliás, a "Escola Dominical" é a única escola que não forma ninguém, mesmo depois de vinte, trinta, quarenta anos nela. Os estudos são quase sempre irrelevantes para a vida prática porque as igrejas não têm coragem de tratar a vida como ela é de fato.

A igreja evangélica há muito caducou, porque a verdadeira igreja é um dom de Deus e não uma fabricação humana com nossos métodos. Um dos males das igrejas é priorizar as formas, programas, métodos, e coisas, em detrimento das pessoas. Nesse ambiente os programas são maximizados e os relacionamentos são minimizados. E, por falar em relacionamentos, esse um ponto fraco dos crentes. Ao contrário do que possa parecer, não existe amizade entre os crentes, o que existe são relacionamentos convenientes, amizades morais. A liberdade de ser honesto e discordar fazem parte de uma verdadeira amizade, mas isso não existe entre os crentes. As amizades só existem enquanto você está dentro do sistema eclesiástico. Ao “sair” da linha você perde todas as amizades da igreja, porque, como já foi dito, “a igreja é o único exército no mundo que deixa os seus feridos para trás”.

Quando Deus se torna o seu primeiro amor não existe mais nenhum interesse em investir na máquina eclesiástica, e você perde o interesse pela igreja institucional, porque Deus dá menos valor à instituição e coloca todo o valor nas pessoas. Ninguém gosta de conviver com alguém que está sempre lhe fazendo sentir-se culpado ou lhe pressionando para atender às suas expectativas, e é isso o que as igrejas fazem – domesticam as pessoas para viverem de desempenho e não de relacionamentos livres em amor. Mas Jesus diz: “Se vós soubésseis o que significa: Misericórdia quero e não holocaustos, não teríeis condenado inocentes".

Quando aprendemos com o Evangelho a não ser mais movido pela culpa opressora de ter fracassado, nem pelas exigências desgastantes de uma moralidade escravizante, e a não despejar essas crenças em cima dos outros, não faltará gente com quem partilhar a vida com Deus. Congregar e se relacionar como Igreja do Senhor Jesus Cristo como uma expressão de consciência e não de uma obrigação que gera culpa é uma verdade que a grande maioria dos crentes não conhece, visto estarem focados na igreja como organização.

Jesus enviou o Espírito Santo como nosso guia, mas a igreja evangélica é guiada por doutrinas de homens, por confissão doutrinária, por estatutos e regimentos, por códigos, regras e mais regras. Assim, muitos seguem as regras porque não conhecem Jesus. A relação com Jesus é totalmente pessoal e não pode ser padronizada como faz a “igreja”, que se tornou o ídolo dos crentes. Poucos percebem, mas os crentes tratam a igreja (organização, denominação, nomenclatura) como se fosse o próprio Deus. Acorda igreja evangélica!

A obsolescência da igreja evangélica passa pela subserviência dos crentes aos líderes das igrejas. Quanto mais unção espiritual alguém atribui a um líder eclesiástico, mais facilmente esse alguém é enganado por esse líder. Esse engano está estampado na mídia e em muitos púlpitos. Quando o diabo quer enganar uma igreja, ele procura enganar primeiro o pastor, porque a palavra dele quase sempre é recebida como palavra de Deus.

A caduquice evangélica envolve quase tudo nas relações humanas. Por que um dos pecados mais graves continua sendo de ordem sexual? Por que os crentes continuam querendo ser mais certos em tudo que todas as pessoas que não são evangélicas? Por que as igrejas se mantêm usando e abusando da insegurança das pessoas? Por que facilmente as igrejas se dividem? Por que os crentes não toleram os que pensam difere deles? Por que a igreja vive defendendo o seu próprio território? Por que tanto crescimento sem expressão?

Se as igrejas pautassem suas vidas apenas pelo evangelho de Jesus, tudo desmoronaria no universo eclesiástico. As igrejas têm ouvido sobre outro Jesus, abraçado outro evangelho, e aceitado outro espírito; daí viverem alienadas em função do próprio umbigo. A pior prisão é a obrigação religiosa; é uma pena que a maioria dos cativos não perceba isso e prefera continuar vivendo com medo de Deus, do diabo, e da morte. Quem vive com medo vive pela metade, quem vive com medo não ama. Não é essa a igreja de Jesus. As igrejas recorrem à culpa para moldar o comportamento das pessoas, sem perceberem que é essa mesma culpa que as manterá longe de Deus. Jesus não esmaga os quebrados; ele dá descanso para as almas.

"A proposta de Jesus não é, com certeza, aquilo que tanta gente imagina como dar duro no trabalho, reunir uma multidão de fiéis ou construir novos templos. Tem a ver com a vida que se pode enxergar, provar e tocar, algo que se pode desfrutar todos os dias".

Antonio Francisco - Cuiabá, 1 de outubro de 2013 – Voltar para Um novo caminho.

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