26 de ago de 2012

Algumas confissões

Gosto da frase que diz: “Não posso agradar a todos, mas posso agradar a Deus”. Quem vive para agradar aos outros vive frustrado e não assumiu ainda sua própria identidade, pois ninguém consegue agradar a todos. Isso nunca foi problema para mim, pois, nunca negociei minha consciência com ninguém. Exatamente por isso é que nunca fui queridinho dos líderes das igrejas por onde passei; eles nunca me tiveram em suas mãos. Minha mente é cativa do Evangelho, não dos evangélicos.

Vivi trinta e quatro anos na igreja evangélica, três deles estudando teologia num seminário interno, e vinte e cinco anos pastoreando. Pastoreei quatro igrejas, ficando vinte e um anos na última igreja. Hoje, depois de quase dois anos que deixei aquele ambiente eclesiástico, vejo que nunca me senti plenamente em casa naquele meio, exceto nos primeiros três anos na igreja onde ouvi o Evangelho pelo meu Pastor Lourenço Linhares. Ele faleceu há quatro meses com noventa e dois anos. Depois de tanto tempo percebo o quanto aquele homem foi um verdadeiro pastor. Nunca mais conheci uma igreja como aquela, onde nasci e cresci com saúde e desenvoltura espiritual. Aquela igreja não era perfeita, mas era perfeitamente equilibrada.

Deixei a igreja evangélica porque ela não me cabia mais. Hoje eu não seria aceito como membro de nenhuma igreja evangélica histórica, pentecostal ou neopentecostal, muito menos como pastor. Estou completamente alienado ou essas igrejas há muito se desviaram do Evangelho. “Mas receio que, assim como a serpente enganou a Eva com a sua astúcia, assim também seja corrompida a vossa mente e se aparte da simplicidade e pureza devidas a Cristo” (2Co 11.3). Como creio em minha lucidez firmada em Cristo Jesus, afirmo que a igreja evangélica está como a semente que caiu entre espinhos, vivendo sufocada com os cuidados, riquezas e deleites da vida. Como disse Jesus, os frutos dessa igreja nunca amadurecem.

Sei muito bem que qualquer ajuntamento precisa de um mínimo de organização e de critérios para funcionar. Nunca confundi liberdade com libertinagem, nem informalidade com desordem. Mas sei muito bem a diferença entre forma e fôrma. A forma é maleável, ajustável, e adaptável. Já a fôrma é rígida, pedrada, e fixa. A igreja evangélica se ajusta exatamente na fôrma. Grande parte do Cristianismo parece um grande exército formado de soldadinhos de chumbo. Nunca me ajustei à fôrma; nunca me familiarizei com algumas práticas eclesiásticas. Assembleia de igreja é uma das coisas mais tediosas desta vida. A politicagem corre solta na eleição de cargos para liderança – tudo regado com oração. Eu evitava ao máximo participar de convenções e concílios da denominação, porque não compensava viajar para tão longe.

Vigília de igreja é aquela coisa que todo mundo aparenta estar gostando, mas que a maioria fica desejando que amanheça logo pra ir embora. Um dos melhores momentos é quando tem um intervalo para lanchar e tomar bastante café para despertar o sono que castiga a turma entediada com cânticos e sermões. Eu não faria mais vigílias com a igreja a não ser que houvesse um motivo justificável, e não para cumprir o calendário espiritual da igreja. As reuniões de oração pela manhã no templo eu também não faria mais, pois a frequência justificava o quanto aquilo era indesejado, e mesmo os que vinham, continuavam dormindo na reunião. Coisa patética, para dizer que tudo era em nome de Jesus. Estatuto de igreja é a segunda bíblia dos crentes, e, em alguns lugares é a autoridade máxima quanto ao modo de funcionar o clube religioso. Nesses estatutos e regimentos internos é definido o modo de conduzir o comportamento dos membros. Coisas estranhas estão escritas naqueles documentos poderosos que não têm nenhum fundamento bíblico, apenas “doutrinas de homens”. Eu não suportava mais aquilo que participei até mesmo criando essas regras. O sistema me levava a liderar daquele jeito, pois foi assim que aprendi por três décadas. E olha que eu fazia parte de uma denominação moderada. Imagine o que não tem por aí.

Tenho consciência tranquila pelo modo como pastoreei aquelas igrejas por mais de duas décadas. Mas, me arrependo de algumas situações que aconteceram e que não faria outra vez se pudesse voltar atrás. Muitas coisas hoje seriam diferentes com a consciência e a maturidade que adquiri em Cristo. Eu me arrependo de ter trocado de Bíblia por três anos, depois de mais de trinta anos usando a mesma versão. Não cometi nenhum pecado por isso, mas aqueles foram os anos que menos li a Bíblia, até que voltei a ler a Bíblia na versão do coração. Não estou idolatrando a versão que adotei, mas apenas dizendo que fui prejudicado com aquela mudança que não faria de novo. Tenho várias versões da Bíblia, mas uso aquela que vem comigo desde o início da fé. Acho importante adotar uma versão.

Hoje eu não adotaria nenhuma estratégia de crescimento para a igreja. Fiz cursos e recebi treinamentos. Primeiro, envolvi a igreja em “Grupos familiares”, depois em “células”; coisas semelhantes. Não cheguei ao formato do G12, mas é tudo muito parecido. É uma espécie de Herbalife e Amway das igrejas. Não faria mais nada daquilo hoje, pois acredito que Jesus também não faria o que fiz, como não fez nada semelhante. Se alguém acha que não conheço as bases bíblicas para aquelas estratégias, está enganado, pois não só recebi treinamentos, como treinei igrejas com aqueles métodos. A Igreja de Jesus não precisa daquilo.

Hoje eu seria menos exigente com a igreja. O zelo da “Casa de Deus” me consumiu negativamente e consumiu também muitos que pastoreei. Há alguns anos Deus falou muito comigo no texto que diz: “Não sejas demasiadamente justo, nem exageradamente sábio; por que te destruirias a ti mesmo?” (Ec 7.16). Cobrei muito e aprendi que não precisava ter sido como fui. Percebi com a experiência que a vida cristã só funciona quando a pessoa adquiriu por consciência própria a convicção de viver conforme o Evangelho. As igrejas estão cheias de pessoas vazias que vivem tateando à procura de Deus, mas não o encontram por causa da religiosidade doente que tomou conta do Cristianismo. A coisa desandou de tal maneira que, para ser do Evangelho, você precisa deixar de ser evangélico. Os crentes não conhecem a Bíblia e facilmente são levados por qualquer vento de doutrina.

Se eu pudesse voltar atrás, eu faria como estou fazendo; mas, como estou fazendo não seria aceito onde eu fazia como fazia. Eu era aceito com tudo que hoje condeno, mas não sou aceito hoje por eles com tudo que aceito. Seria eu um “evangélico?”. Certamente que não. Vivo pela fé em Jesus sem nenhuma estrutura eclesiástica, sem nenhum controle sobre a Comunidade que pastoreio e sem nenhuma estratégia de crescimento. Nunca fui tão feliz, livre e abençoado como nesses dias, com dificuldades.

Antonio Francisco - Cuiabá, 26 de agosto de 2012 - Voltar para Um novo caminho.

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