30 de jul de 2012

O SENHOR é o meu pastor

Davi, o mavioso salmista de Israel, como pastor, se comparou com uma ovelha quando escreveu o Salmo 23. Se ele compôs o salmo debaixo de uma árvore frondosa olhando para o rebanho ao seu redor, ou se fez isso em uma reflexão na velhice, não sabemos; mas, o que importa é saber que sua experiência pastoral nos trouxe essa pérola da literatura bíblica, inspirada por Deus para nos abençoar com esse tesouro que nos enche de confiança no cuidado do Pastor celestial.

É bem conhecida a historieta do moço e do idoso que se colocaram diante de um grande auditório para recitarem de cor o Salmo 23. O jovem se apresentou usando muito bem as técnicas da oratória e do drama com uma excelente eloquência. Quando terminou, foi aplaudido efusivamente pelo auditório entusiasmado. Em seguida, o idoso se apresentou com dificuldade, tendo que se apoiar em sua bengala, recitando o salmo com voz fraca e trêmula. Quando terminou, o público em lágrimas permaneceu em profundo silêncio. Diante daquele cenário, o jovem foi à frente e disse a todos: “Quero lhes dizer a diferença entre a minha apresentação e a apresentação do ancião: Eu conheço muito bem o salmo, mas ele conhece o Pastor”.

Todos gostam do Salmo 23, mas somos tentados a subestimar este texto maravilhoso por achar que o conhecemos muito bem sem que tenhamos nada mais a aprender dele. O engano habita exatamente aqui, pois, conhecer bem a letra não significa conhecer o seu conteúdo. Até mesmo as crianças conhecem bem este salmo e crescem recitando, cantando, e dramatizando essa passagem bíblica. Porém, o grande detalhe consiste em conhecer o Pastor do salmo, caso contrário, podemos como o jovem da historieta, apenas recitar ou dramatizar essa poesia judaica.

O Salmo 23 começa com uma afirmação, não com uma súplica; ele fala de uma certeza, não de uma possibilidade. Ele fala do presente, não do passado nem do futuro, porque a ovelha de Jesus não se preocupa com o dia de amanhã; ela vive um dia de cada vez e instintivamente sabe que o pastor tem provisões para o dia seguinte, pois ele conhece todas as nossas necessidades antes mesmo que lhe peçamos ajuda. A certeza destas palavras faz toda a diferença na vida de quem assume essa declaração como verdade em sua vida. A realidade da vida com Deus não é o mesmo que ter informações sobre Deus. Jesus disse: “Se alguém quiser fazer a vontade dele, conhecerá a respeito da doutrina, se ela é de Deus ou se eu falo por mim mesmo”. Ou seja, a menos que façamos a vontade de Deus, não experimentaremos a vontade de Deus em nossas vidas, porque o Evangelho não é cardápio, ele é comida.

Mas, quem é o Senhor para que eu possa dizer “O SENHOR é o meu pastor?”. Ele me conhece? Ele se importa comigo? Posso confiar plenamente nele? Sim, ele é Jesus, que nos amou e se entregou a si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave. Ele é o herdeiro de todas as coisas, e foi ele mesmo quem fez o universo. Ele é o resplendor da glória e expressão exata do ser de Deus. Ele sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder e nos purifica de todos os pecados. Agora mesmo ele está assentado à direita da Majestade, nas alturas, acima de tudo e de todos. Jesus é digno de toda confiança porque nos livra do império das trevas e nos aceita em seu reino; nele temos a redenção, o perdão dos nossos pecados. Ele é a imagem do Deus invisível, está acima de toda a criação porque criou todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas, e nele, tudo subsiste. Este é o SENHOR; este é o meu pastor.

Davi conhecia muito bem a condição das ovelhas e a importância do pastor para elas, pois as ovelhas não cuidam de si mesmas, e são totalmente indefesas. Assim, ele admite sua fragilidade e dependência e chama o Senhor criador dos céus e da terra, o Todo-Poderoso de seu Pastor. Ele não diz: “O SENHOR é o pastor do mundo inteiro”, mas, “O SENHOR é o meu pastor”, mostrando desse modo que a relação com Deus é antes de tudo pessoal. Se não posso dizer que o Senhor é o meu pastor, não posso contar com o restante do salmo. Como dizer que nada me faltará se não acredito que o Senhor é tudo para mim? Como repousar em pastos verdejantes se não conhecer o pão da vida, o príncipe da paz? Como desfrutar das águas de descanso se não experimentar da água da vida que se torna em mim uma fonte que jorra para a vida eterna? E assim sucede por todo o restante deste belíssimo salmo.

Não basta adotar um credo coletivo se a confiança em Deus não for uma experiência viva de cada pessoa. Nisso muitos vivem iludidos, pois confessam com os lábios o que não conhecem na experiência; acham que concordar juntamente com outros com uma tese ou uma lista de artigos que conceituam teologicamente a fé em Deus, lhes faz conhecedores de Deus, mas logo percebem a dicotomia entre a confissão e a contrição, pois não conseguem viver o que dizem crer. A minha fé em Deus deve ser de tal maneira que mesmo que ninguém ao meu redor reconheça a existência de Deus, ele continua sendo o meu pastor. A religião tem conseguido iludir as pessoas com conceitos, liturgias e rituais, fazendo-as acreditar que ajustar-se aos estereótipos de uma “igreja” as torna ovelhas do bom pastor que é Jesus. Ao notarem que as mudanças geralmente não passam de comportamentos externos que não satisfazem ao coração, elas tendem a ficar decepcionadas com Deus.

Jesus falou duro contra os escribas e fariseus porque eles iludiam as multidões com as aparências religiosas e não ofereciam a verdade do Evangelho. Eram hipócritas, porque fechavam o reino dos céus diante dos homens; eles não entravam, nem deixavam entrar os que estavam entrando. E, quando uma pessoa é enganada sobre Deus, a quem ela recorrerá? Tais pessoas não podem dizer: “O SENHOR é o meu pastor”.

Jesus é o bom pastor que dá a vida pelas ovelhas. Ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz pelas veredas da justiça andando adiante delas. As ovelhas do Senhor ouvem a sua voz e o seguem, porque lhe reconhecem a voz e recebem dele a vida abundante. Isso quer dizer também que as ovelhas devem seguir o seu pastor de perto para evitar qualquer distração ou ataque do mal. Além disso, elas não se dão bem isoladas, são medrosas e muitas vezes teimosas. O Senhor é o pastor que alimenta, cuida, e protege. Davi sabia muito bem o que estava dizendo, pois, como pastor ele havia livrado suas ovelhas de feras que tentaram atacar seu rebanho. Se ele como homem limitado protegeu seu rebanho, o que não dizer do SENHOR que criou e sustenta o universo com o seu poder!

Antonio Francisco - Cuiabá, 30 de julho de 2012 – Voltar para Série sobre o Salmo 23.