10 de jun de 2012

Você é de Nazaré ou da Fenícia?

Quando visitei a Chapada dos Guimarães pela primeira vez, fiquei maravilhado com o que vi naquela região cheia de belezas naturais. Depois de anos voltando a visitar aqueles lugares, continuo achando tudo muito lindo como da primeira vez, mas não sinto mais as mesmas emoções e não admiro mais as coisas do mesmo modo. Isso ilustra o perigo da familiaridade com o sublime. É como alguém que mora numa região montanhosa e perde a sensação das alturas. O costume pode confundir.

Jesus foi criado em Nazaré, mas, no tempo devido ele saiu daquela cidade para anunciar o Evangelho, ensinar seus discípulos e fazer o bem a todos. Isso aconteceu quando ele tinha trinta anos, o que significa dizer que por todo aquele tempo ele viveu na pequena cidade de Nazaré com sua família. Certa ocasião, retornando para sua terra na companhia de seus discípulos, ele ensinava na sinagoga num dia de sábado, deixando a multidão maravilhada com suas palavras, ao ponto de muitos dizerem: “Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos? Não é este o carpinteiro, filho de Maria, irmão de Tiago, José, Judas e Simão? E não vivem aqui entre nós suas irmãs? E escandalizavam-se nele”. Então, Jesus, disse: “Não há profeta sem honra, senão na sua terra, entre os seus parentes e na sua casa”. Por causa da incredulidade deles, Jesus não fez ali nenhum milagre, senão curar uns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos. Ele ficou admirado com a incredulidade deles. Porém, continuou percorrendo as aldeias vizinhas ensinando a palavra de Deus.

É fácil confundir o santo com o sagrado. Como diz o Pastor Caio Fábio, “o sagrado a gente faz, o santo É”. A maioria vive apenas no chão do sagrado, daquilo que faz e constrói com as próprias mãos para Deus. Mas não é isso o que mais importa; o mais importante é o que somos, é o que Deus faz em nós. Ele não busca casa que fazemos com nossas mãos para ele habitar, pois quer habitar em nós mesmos como templo do Espírito Santo. As pessoas de Nazaré conheciam o sagrado, mas não conheciam o Santo e nem aprenderam a ser um povo santo. O fato de terem conhecido Jesus desde a sua infância os fez perder de vista o sublime nele, pior que isso, os nazarenos não conseguiram discernir sua santidade, nem o receberam como Senhor e Salvador. Não sabiam de onde vinha sua sabedoria e não compreendiam sua capacidade de fazer coisas extraordinárias. Só o conheciam como um carpinteiro e como mais um membro da família de José e Maria.

Multidões vivem hoje para o sagrado, mas desconhecem o que significa ser santo. Conhecem as coisas sagradas, frequentam lugares sagrados, usam palavras sagradas, definem territórios sagrados, dias santos, até criam doutrinas e manuais de santidade, mas sem nexo com o que são de fato. Essas pessoas são como os nazarenos dos dias de Jesus que pensavam conhecer Jesus muito bem, que se sentiam até privilegiados por terem crescido com ele. Mas tudo aquilo não passava de um convívio externo, social, comportamental. A dicotomia era tamanha que até trataram Jesus com indiferença, tal a ignorância espiritual em que viviam. Assim estão os que dizem conhecer a Deus, que andam com a Bíblia na mão e que dizem ser povo de Deus. Eles se consolam com o sagrado que constroem, mas vivem distantes do Santo.

O relato sobre o povo de Nazaré em relação a Jesus está no Evangelho de Marcos 6.1-6. Virando a página, há outro relato que mostra exatamente o contrário do que acontecia em Nazaré. Refiro-me à mulher siro-fenícia (Mc 7.24-30). Jesus retirou-se para as terras de Tiro e Sidom, região da Fenícia, norte da Galiléia, atual Líbano. Ele viajou cerca de 50 km entrou numa casa e queria que ninguém soubesse que ele estava ali. Porém, não pôde ocultar-se, porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se lhe aos pés. Aquela mulher era grega, nascida nas imediações da Síria e Fenícia. Ela rogava que Jesus expelisse o demônio de sua filha. Ao que Jesus lhe disse: “Deixa primeiro que se fartem os filhos, porque não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. Filhos eram os judeus, enquanto cachorrinhos era uma referência aos gentios (não judeus), o que incluía diretamente a mulher que falava com Jesus. A mulher aceitou a comparação e disse que os cachorrinhos, debaixo da mesa, comem das migalhas das crianças. Jesus então lhe disse: “Por causa desta palavra, podes ir; o demônio já saiu de tua filha”. Ela voltou para casa e achou a menina sobre a cama, porque o demônio a tinha deixado.

Aquela mulher siro-fenícia prostrou-se diante de Jesus e o adorou. Ela orou, mostrou fé, persistência, paciência e humildade. Jesus que antes queria ficar oculto naquela casa não resistiu à confiança e dependência que aquela mulher depositou nele, porque o Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito oprimido. Deus não despreza um coração compungido e contrito. Aquela mulher desconhecia o sagrado, mas era uma santa de Deus. Ela não convivia com Jesus, apenas tinha ouvido falar sobre ele e isso foi o bastante para que ela nele cresse, até porque é assim mesmo que acontece, a fé vem por ouvir a palavra de Cristo.

Comparar os nazarenos com a mulher gentia siro-fenícia em relação a Jesus, deve nos levar a algumas considerações, como: parecemos mais com os de Nazaré ou com os da Fenícia? Somos do sagrado ou somos santos? Ficamos satisfeitos com a religião, com os ritos, com os termos teológicos, os padrões de boa conduta ou, como a mulher, somos daqueles que adoram a Jesus, se prostram diante dele, não brincam de fé, dependem dele, não têm os nervos expostos, não vivem com melindres, são humildes diante de Deus, aceitam as migalhas de Deus, mesmo sabendo que ele tem pão fresco para quem dele tem fome!? Esse é um tempo para cada um definir sua identidade. Você é de Nazaré ou da Fenícia?

Antonio Francisco - Cuiabá, 10 de junho de 2012 – Voltar para Um novo caminho.

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