27 de mar de 2012

Espinho na carne

Como nunca antes na história dos cristãos, os que confessam seguir Jesus evitam viver como ele viveu e ensinou a viver. Até parece que o evangelho mudou e estamos vivendo uma fé contrária à fé que uma vez por todas foi entregue aos santos. Enquanto a Bíblia diz que através de muitas tribulações nos importa entrar no reino de Deus, os crentes querem viver o céu na terra. Isso é muito estranho.

"Se é necessário que me glorie, ainda que não convém, passarei às visões e revelações do Senhor. Conheço um homem em Cristo que, há catorze anos, foi arrebatado até ao terceiro céu (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) e sei que o tal homem (se no corpo ou fora do corpo, não sei, Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir. De tal coisa me gloriarei; não, porém, de mim mesmo, salvo nas minhas fraquezas. Pois, se eu vier a gloriar-me, não serei néscio, porque direi a verdade; mas abstenho-me para que ninguém se preocupe comigo mais do que em mim vê ou de mim ouve. E, para que não me ensoberbecesse com a grandeza das revelações, foi-me posto um espinho na carne, mensageiro de Satanás, para me esbofetear, a fim de que não me exalte. Por causa disto, três vezes pedi ao Senhor que o afastasse de mim. Então, ele me disse: A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo. Pelo que sinto prazer nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias, por amor de Cristo. Porque, quando sou fraco, então, é que sou forte" (2 Co 12.1-10).

A primeira consideração que faço a partir desse texto, é que precisamos atentar para a nossa natureza caída, pois até as revelações que temos do Senhor podem nos envaidecer. Imagine o que pode resultar do que achamos ser bom em nós mesmos. Paulo ouviu da parte de Deus palavras "inefáveis", indizíveis, inexplicáveis, isto é, as palavras foram tão gloriosas que não seria possível relatar para ninguém. Que privilégio, diríamos, Paulo foi arrebatado ao terceiro céu para ouvir palavras que ninguém mais ouviu ou poderia receber nem explicação, por serem tão profundas. Mas, veja: Essa experiência arrebatadora da parte de Deus na vida do apóstolo lhe trouxe a tentação de se envaidecer. Isso nos ensina que devemos vigiar sempre não só pelas coisas más que podem vir do nosso coração, mas também devemos vigiar para não nos orgulharmos das coisas boas que fazemos, porque Jesus disse: "ignore a tua mão esquerda o que faz a tua mão direita" (Mt 6.3) e, devemos cuidar porque até mesmo aquelas coisas que vêem diretamente de Deus para nós podem nos orgulhar.

Para que Paulo não se ensoberbecesse, foi-lhe posto um espinho na carne. Esse espinho tem sido entendido de muitas maneiras, mas não é interessante saber exatamente o que era aquele espinho. Mais importante que saber o que era o espinho na carne de Paulo, é saber o propósito dele. Mas, é dito que um mensageiro de Satanás lhe esbofeteava, a fim de que ele não se exaltasse por causa das revelações que teve. Em outras palavras, tinha um demônio enviado por Deus afligindo Paulo para evitar que ele se sentisse "o cara". Isso parece estranho? Também acho, mas foi o que aconteceu. Aquela situação era tão incômoda para Paulo que ele orou três vezes para que Deus afastasse aquele problema. Mas Deus não lhe atendeu, e provavelmente ele morreu com aquela coisa na sua carne. Deus usa o que ele quiser para nos livrar da independência dele. O espinho fez com que Paulo se sentisse fraco, mas ao mesmo tempo lhe fez depender ainda mais de Deus, ao ponto de ficar feliz com aquela situação e aprender que o poder de Deus se aperfeiçoa na nossa fraqueza, pois é quando estamos fracos, que somos fortes.

Tenho plena consciência que essa reflexão é estranha para a maioria dos crentes e que esse tipo de mensagem não é proclamado dos púlpitos atuais, mas é o que a Bíblia está dizendo para nós. Isso não quer dizer que não podemos orar pedindo que Deus nos livre de doenças e problemas vários, mas significa dizer que a vida cristã não é viver na maciota nem determinando como as coisas devem ser. Existe um Deus que nos conduz e usa situações várias para nos manter pertinho dele. Se acreditássemos nisso, não reclamaríamos nem ficaríamos vendo o diabo em tudo o que não nos agrada, e mesmo que o diabo esteja em ação a nos atingir, ele está a serviço do Senhor, exceto quando damos lugar a ele pelos nossos pecados. Enfim, precisamos de espinho na carne, caso contrário, corremos o risco de surtar.

Quando é que vamos ficar satisfeitos com a graça de Deus? O Senhor disse para Paulo e diz para nós: "A minha graça te basta". Basta mesmo, ou precisamos de algo mais? Jesus nos ensinou a orar pedindo ao Pai que nos livre do mal, o que nem sempre, ou quase sempre não é o que chamamos de mal. O nosso problema é que chamamos muitas vezes o que é mal de bem e o bem que Deus nos faz (às vezes com espinhos), chamamos de mal. Precisamos aprender a andar com Deus e deixar de determinar para Deus como ele deve andar conosco.

Ninguém quer sofrer, mas não deveria ser estranho para os cristãos, pois, "sofrimentos iguais aos vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo" (1 Pedro 5.9). O que quero dizer com tudo isso, é que Deus está conosco, nós estamos com ele, temos experimentado sua bondade maravilhosa, somos seus filhos, temos o perdão de nossos pecados e o céu por herança. Mas, não podemos esquecer jamais que a vida cristã é um paradoxo do ponto de vista do homem natural. Andar com Deus, é quase sempre andar na contramão deste mundo. É quando estamos fracos que ficamos fortes. A fé não nos livra de sofrer, pelo contrário, muitas vezes ela nos faz sofrer.

Antonio Francisco - Cuiabá, 27 de março de 2012 – Voltar para Mensagens.

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