25 de ago de 2011

Culto às tendas

O capítulo dezesseis de Mateus termina com Jesus falando de sua vinda gloriosa, e que alguns de seus discípulos não morreriam sem ver a vinda do Filho do Homem no seu reino. O capítulo seguinte mostra que seis dias depois Jesus subiu ao monte onde foi transfigurado diante dos seus discípulos. O que foi aquela transfiguração, senão uma demonstração da vinda de Jesus em seu reino de glória!

Os discípulos que estavam com Jesus tiveram uma experiência com a glória de Deus que os marcou profundamente. O apóstolo Pedro faz menção desse fato em uma de suas cartas, referindo-se à vinda do Senhor Jesus Cristo e à sua majestade (2Pe 1.16-18).

"Seis dias depois, tomou Jesus consigo a Pedro e aos irmãos Tiago e João e os levou, em particular, a um alto monte. E foi transfigurado diante deles; o seu rosto resplandecia como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. E eis que lhes apareceram Moisés e Elias, falando com ele. Então, disse Pedro a Jesus: Senhor, bom é estarmos aqui; se queres, farei aqui três tendas; uma será tua, outra para Moisés, outra para Elias. Falava ele ainda, quando uma nuvem luminosa os envolveu; e eis, vindo da nuvem, uma voz que dizia: Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo; a ele ouvi. Ouvindo-a os discípulos, caíram de bruços, tomados de grande medo. Aproximando-se deles, tocou-lhes Jesus, dizendo: Erguei-vos e não temais! Então, eles, levantando os olhos, a ninguém viram, senão Jesus" (Mt 17.1-8).

A centralidade de Jesus, sua superioridade e importância essencial ficam explícitas nessa experiência no monte. Exatamente por isso é que quero me deter na sugestão incabível de Pedro de construir tendas para abrigar a glória de Deus. Surgiu ali a tendência doentia de materializar, de institucionalizar o que Deus faz sem exibição. Jesus poderia ter se transfigurado no pináculo do templo diante das multidões. Mas foi exatamente num monte com apenas três discípulos que tudo aconteceu, tendo a visita de dois ilustres do Antigo Testamento, Moisés e Elias.

A vontade de enquadrar Deus vem de longe. A religião adora confinamentos, clausura. Basta olhar a história bíblica e a história da Igreja, ou seja, do cristianismo. Durante a peregrinação dos patriarcas, eles habitaram em tendas, mas as tendas ainda não habitavam neles. Mas, depois de 430 anos no Egito o povo observou o valor que os templos tinham para as religiões. O Egito é um modelo em construir monumentos e o povo de Israel simpatizou com isso. Eles cultuavam a Deus no Tabernáculo sob orientação divina enquanto andavam pelo deserto, mas, ao chegarem a Canaã, quiseram um rei como as outras nações e logo se dispuseram a construir um templo.

Aquela vontade de fixação, de fazer tendas para Deus, não durou muito tempo. O pecado do povo fez com que Deus permitisse que Nabucodonosor, rei da Babilônia com seus soldados, destruíssem o templo que o rei Salomão havia construído. Eles entraram no lugar santo e levaram para sua terra os instrumentos sagrados de culto de Israel. O templo foi destruído e o povo levado para o cativeiro. Isso só mostra que Deus não habita em templos feitos por mãos humanas.

Depois de 70 anos o povo retornou do cativeiro e construiu outro templo. Não tinha a glória do anterior, mas transformaram o segundo templo na casa do tesouro. Havia um serviço sacerdotal a ser mantido e eram chamados de ladrões os que não traziam seus dízimos para manter aquela estrutura.

Nos dias de Jesus estava em construção o templo de Herodes, o Grande. O culto às tendas continuava. Quando os discípulos mostraram a beleza daquelas construções para Jesus, ele disse: “Não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada”. Para a mulher samaritana Jesus disse que Deus não é adorado em lugares sagrados, mas em espírito e em verdade. A Igreja de Jesus nasceu para ser um movimento itinerante e não um monumento. A pulsão pagã de determinar territórios sagrados adoeceu os crentes.

Mesmo presenciando o brilho da glória, a voz vinda do céu, e a clara demonstração de que a lei e os profetas já passaram para darem lugar a Jesus, a quem tão somente devemos ouvir, Pedro que não sabia o que dizer, vem propor tendas. Infelizmente o cristianismo tem feito como Pedro naquela ocasião. Chamar prédio de igreja, venerar tradição, história denominacional, endeusar líderes, criar fã clube para artista gospel, e criar regimentos com regras e mais regras que só oprimem o povo, é outra maneira de cultuar tendas. Deus nos livre do culto às tendas; elas são instáveis e não dão o abrigo que precisamos. Enquanto os templos ficam cada vez mais suntuosos, os relacionamentos nas igrejas ficam cada vez mais ralos e estéreis.

Antonio Francisco - Cuiabá, 25 de agosto de 2011 - Voltar para Um novo caminho.

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