24 de ago de 2011

A Centralidade da cruz

“E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim mesmo” (Jo 12.32). Foi por sua morte na cruz que Jesus atraiu e atrai todos a ele, o que mostra a centralidade da cruz em nossas vidas. Fomos criados para os relacionamentos, e a Bíblia é uma história de relacionamentos: a vontade de Deus de se relacionar com o homem se expressa na cruz quando lemos que Jesus atrai todos a ele mesmo.

Mas, o pecado atrapalhou nossa capacidade para os relacionamentos. A solidão é uma das conseqüências do afastamento de Deus. Quando nos distanciamos de Deus, também nos distanciamos das pessoas; aliás, nos bloqueamos dentro de nós mesmos ao ponto de não nos entendermos e nos aceitarmos muitas vezes ou quase sempre. Nas palavras do profeta Isaías, “todos nós andávamos desgarrados como ovelhas; cada um se desviava pelo caminho, mas o Senhor fez cair sobre ele (Jesus) a iniquidade de nós todos”. Aqui temos a boa notícia do Evangelho: “Todos nós” andávamos solitários pelo caminho, mas Jesus assumiu a culpa de “nós todos”.

A morte de Jesus na cruz eliminou nossa culpa como pecadores para com Deus. O castigo que veio sobre ele nos trouxe a paz, de tal maneira que, ao ressuscitar, ele nos declarou justos aos olhos de Deus. O resultado disso é que crendo nesse fato histórico redentor, temos paz com Deus, podendo assim ter comunhão com ele com livre acesso ao lugar mais secreto de sua comunhão mediante o Espírito Santo.

Isso tudo mostra a centralidade que deve ter a cruz de Jesus em nossas vidas. O Novo Testamento fala dessa verdade como sendo da máxima importância para cada um de nós. Crer ou não crer no que Jesus fez na cruz em nosso favor faz toda a diferença em nosso viver diário e em nosso destino eterno. A mensagem do apóstolo Paulo era a mensagem da cruz. Quando em contato com os gregos que tanto valorizavam as filosofias, ele disse: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado”. Noutra ocasião ele disse: “Mas longe esteja de mim gloriar-me, senão na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu, para o mundo”.

A mensagem da cruz não apenas nos reconciliou com Deus, mas possibilitou a comunhão com o nosso próximo, ao ponto de termos com ele uma relação de irmãos. Na verdade, a comunhão com Deus se evidencia na comunhão com as pessoas. Esse é um teste de qualidade espiritual: quando temos comunhão com Deus, temos também comunhão com as pessoas; quando não estamos bem com Deus, também não estamos bem com as pessoas. Essa é uma via de mão dupla que sempre funciona assim.

Contudo, precisamos considerar uma verdade pouco discernida. Antes de conhecer o Evangelho nossas relações interpessoais pareciam ser mais amplas, naturais, expansivas e numerosas. Depois da experiência cristã que gerou em nós a consciência da filiação espiritual com Deus por meio do sacrifício de Jesus na cruz e sua ressurreição, parece que nosso círculo de amizade se estreitou e a qualidade de nossos relacionamentos piorou. Isso é verdade. Mas é uma verdade para melhor e não para pior. Depois de compreender essa dimensão de relacionamentos a partir da cruz, tudo fica claro.

Antes do Evangelho nos alcançar, nossos relacionamentos eram almáticos, ou seja, aconteciam apenas na dimensão da alma, das emoções, dos interesses egoístas. Tudo era relativo, quase nada era absoluto. As aparências se apresentavam conforme as conveniências em cada situação. Tudo era bom enquanto era bom para nós, mas quando fugia dos nossos interesses, éramos capazes de tudo. Era assim e é assim sem o Evangelho, mesmo que na consciência de muitos haja sinceridade no que fazem.

O Evangelho em nós abre relações em todas as direções; ele nos torna mais acessíveis, comunicáveis e de convívio fácil. Mas, quando se trata de intimidade relacional e de fraternidade espiritual, precisamos encontrar pessoas que, como nós, estejam crucificadas com Cristo. Apenas aqueles atraídos pelo Jesus levantado da terra se entendem e convivem na dimensão do espírito e não apenas da alma.

Antonio Francisco - Cuiabá, 24 de agosto de 2011 - Voltar para Um novo caminho.

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