2 de fev de 2011

Uma igreja de gente comum

“Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe... Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente” (Almir Sater). Hoje alguém me perguntou como estou me sentindo na atual conjuntura da vida. Eu respondi que vivo um verdadeiro paradoxo: Não tenho salário, mas tenho dívidas para pagar.

Fui enxotado da igreja que pastoreei por vinte e um anos, mas, como nunca antes, me sinto tão feliz com a vocação que recebi do Senhor para pastorear sua igreja. Não temos prédio próprio (templo), e como é bom não ter isso. No momento, nos reunimos de favor nas dependências de uma escola, mas não faz nenhuma diferença se mudarmos para um centro comunitário, um auditório com poltronas e ar-condicionado, ou se nos reunirmos debaixo de uma mangueira. Jesus disse: “Onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles” (Mt 18.20). Não precisamos provar nada pra ninguém. Queremos tão somente andar cada dia com Jesus em comunhão com as pessoas.

Ontem oferecemos em casa um jantar para nossa comunidade pelo aniversário de minha filha caçula. Foi um tempo em família com muita alegria e naturalidade como sempre desejei. Mas, um dos melhores momentos, foi quando um menino de dez anos que esteve em nosso meio pela primeira vez disse ao despedir-se: “Domingo estarei no culto”.

Esse jeito de ser igreja com gente palpável, tratável, falha, livre, aprendiz, tem me deixado deveras feliz. Estou sendo renovado cada dia vivendo para o Senhor, servindo as pessoas como um homem comum. Não tenho pressa porque não estou disputando corrida, não estou apreensivo porque não estou concorrendo com ninguém, estou apenas vivendo.

Parece tão elementar dizer “estou apenas vivendo”, mas não encontro expressão mais feliz para o momento. Hoje eu ando pelas ruas do meu bairro e vejo o que não enxergava antes; vejo muros, paredes, esquinas, vizinhos, pessoas e mais pessoas como não as percebia. Estou apenas vivendo. Esta noite ouvi uma frase ao redor de nossa mesa que me deixou alegre: “Pela primeira vez estamos vivendo nosso dia a dia sem falar de igreja, estamos falando das coisas da vida”.

Perceber a liberdade, a ausência de medo, a naturalidade no viver e no deixar viver entre as pessoas de nossa comunidade, me deixa muito feliz. Meu empenho é no sentido de poder ajudar as pessoas a descansarem no amor de Deus, confiar nele sem a ansiedade de querer controlar a vida.

Isso é o mínimo para gente de igreja, ter saúde espiritual, emocional e relacional. Sei também que se a liderança da igreja não mostrar esses predicados, tal igreja será nada mais que um bando de surtados.

Na Igreja de Jesus feita de gente comum, os problemas das pessoas não devem escandalizar ninguém. Eles devem ser tratados devidamente no espírito do Evangelho conforme cada situação. Ninguém precisa ser exposto, como também ninguém deve ser protegido no pecado.

Na igreja de gente comum, as pessoas vêm ou deixam de vir conforme a consciência de cada um. Ninguém deve vir sob pressão, e não tem que vir com medo de maldição. Vem quem quiser, fica quem gostar. Afinal de contas, nos congregamos como irmãos e amigos.

Igreja tem problemas, mas igreja não é problema. Quando a igreja passa a ser um problema, ela deixa de ser o doente em tratamento e passa a ser a doença; e isso não é igreja de Jesus.

Pastorear uma igreja de gente comum é muito bom.

Antonio Francisco - Cuiabá, 2 de fevereiro de 2011 - Voltar para Um novo caminho.

3 comentários:

Muito legal. Tenho fé em Deus, mas nunca consegui frequentar uma Igreja, somente quando era menina, levada por minha avó. Posso soar um tanto esquisita, mas nas Igrejas vejo tanta gente maldosa. Isso me faz desistir de frequentá-las rapidinho. Estou a procura de uma em que as pessoas se sintam livres para tentarem serem boas umas com as outras, generosas. Maldade já há bastante no trabalho, em casa, nas ruas...

Obrigado por seu comentário. Realmente igreja não é sinônimo de gente bondosa. Gostaria muito que você pudesse se reunir com algumas pessoas para desenvolverem amizade, ler a Bíblia juntas, compartilharem experiências e ajudarem umas às outras. Que tal você começar a fazer isso chamando alguns amigos para um encontro semanal em sua casa?

Um abraço

Antonio Francisco