24 de fev de 2011

Confusão interior

Existe uma confusão dentro nas pessoas evidenciada nas relações humanas. Os que formam opiniões vêem tudo isso apenas do ponto de vista sócio-educativo e econômico. Não conseguem discernir que a confusão passa pela confusão espiritual. “Não só de pão viverá o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus” (Mt 4.4). Estamos em bancarrota porque estamos fora do caminho da vida.

Quem sabe você já teve a sensação de estar andando fora do Caminho. Isso não significa necessariamente ter uma vida depravada, libertina e reprovável. Esse sentimento existe entre os melhores, os exemplares, os moralmente justos e religiosamente irrepreensíveis. Por estranho que possa parecer, a grande maioria das pessoas se sente deslocada da realidade. Sente-se que a vida como ela é não apóia a vida que se vive pessoalmente. Viver assim é viver com a incerteza de que a vida não vale muito. Quando não temos a certeza de que estamos com os nossos pés no Caminho, a vida não avança com esperança de dias melhores; apenas vive-se por viver. Por que a vida é tão sem graça, perguntam muitos. A resposta é a falta de certeza de se estar no Caminho. Quando andamos no Caminho podemos suportar qualquer coisa, pois só assim sabemos de onde viemos, onde estamos e para onde iremos. Imagine algo desbotado. É assim que se sente muita gente. Parece que a vida foi pintada com uma tinta de baixa qualidade, e isso deu lugar a um modo de vida apagado, feio e triste.

A vida pode adquirir nova cor, um brilho inconfundível, quando tivermos a certeza de estar no Caminho. Há poucos dias li um pensamento de Ruben Alves que achei interessante: “Deus nos deu asas, as religiões inventaram as gaiolas”. Muitas pessoas estão engaioladas em prisões as mais variadas. Muitos estão se sentindo como o profeta Jonas no ventre do grande peixe, angustiados, presos em um abismo profundo, mergulhados em águas profundas, sentem-se lançados longe de Deus, com a cabeça enrolada em algas. A sensação às vezes é de uma prisão com ferrolhos eternos (Jn 2). Ter uma religião não é o mesmo que andar no Caminho. Jonas era um profeta de Deus, mas descreve a angústia de andar fora do Caminho. Na parábola do semeador, Jesus disse que a semente “que caiu entre espinhos são os que ouviram e, no decorrer dos dias, foram sufocados com os cuidados, riquezas e deleites da vida; os seus frutos não chegam a amadurecer” (Lc 8.14). Isso mostra que é possível estar dentro da igreja e fora do Caminho. Na verdade, as igrejas estão cheias de pessoas vazias.

Mas, o que dizer daqueles que ignoram a fé e desfrutam de tudo que a vida oferece! Eles têm encontrado o Caminho? Deixemos que um deles responda: “Tudo quanto desejaram os meus olhos não lhes neguei, nem privei o coração de alegria alguma, pois eu me alegrava com todas as minhas fadigas, e isso era a recompensa de todas elas. Considerei todas as obras que fizeram as minhas mãos, como também o trabalho que eu, com fadigas, havia feito; e eis que tudo era vaidade e correr atrás do vento, e nenhum proveito havia debaixo do sol” (Ec 2.10-11). Se a religião não nos coloca no Caminho, muito menos as realizações e os prazeres, o que fazer para encontrar o tal Caminho?

Como diz a música da Ana Carolina: “Minha procura por si só já era o que eu queria achar”. Há um anseio nato em nós pelo Caminho. O salmista disse: “Como suspira a corça pelas correntes das águas, assim, por ti, ó Deus, suspira a minha alma. A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando irei e me verei perante a face de Deus?” (Sl 42.1-2). Sim, o Caminho existe porque Deus existe. Nossos caminhos tortuosos sempre nos levarão ao pecado. Somente Deus pode nos colocar no Caminho.

O Caminho não está na busca de novidades para nos saciar. O Caminho é experimentado na realidade das coisas, na rotina vivida em novidade de vida (Rm 6.4).

A pergunta persiste? Existe mesmo o Caminho? Será que essa coisa de caminho não é apenas fruto de nossa imaginação? De repente o caminho não passa de uma questão filosófica como “um cego procurando num quarto escuro um gato preto que não está lá”. Se de fato o Caminho não existe, essa busca é eternamente inútil. De repente o caminho é o que cada um pensa (Pv 14.10). Ou, o Caminho existe e está impregnado na realidade da vida!? Sim, o Caminho existe.

Lembro-me que aos oito anos de idade eu fui para a cidade com minha avó fazer compras. Morávamos num vilarejo e a cidade mais próxima ficava a 42 km. Nesse dia minha avó comprava uma roupa para mim numa feira livre. Ao descuidar-se de mim por um pouco eu falei que iria beber água na casa de minha tia. Ela não ouviu e eu saí sem saber o caminho para casa. Mas, cheguei lá. Depois de beber eu voltei para a feira. A essa altura, minha avó, parentes e amigos da vila que estavam na cidade também fazendo compras me procuravam preocupados. Até já pensavam em colocar um anúncio na rádio anunciando meu desaparecimento. Não demorou muito e fui encontrado. Acho que fui eu que os encontrei. A verdade é que quando duas partes se procuram se encontram. Assim é o Caminho. Ele existe, e quem o procura, acha.

Em todas as áreas da vida existe “o caminho”, mas existe também o que “não é o caminho”. A fórmula química da água é sempre H20 (duas partes de hidrogênio e uma de oxigênio). Esse é o caminho da água. A aviação descobriu o caminho para voar. Ela não inventou as leis do vôo, apenas as descobriu; se as ignorar, se espatifará. O caminho existe em tudo: na biologia, na matemática, na química, na física, nas relações sociais, na economia, na educação, no trânsito, enfim, em tudo. Mas quando partimos para a questão moral e espiritual, será que nisso também existe o caminho? A obediência é a condição para viver bem com a vida ou ela não passa de costumes e culturas que nos são repassados?

O caminho existe no mundo físico e no mundo espiritual. O universo é a harmonia na diversidade. Deus é a causa de tudo. Ele estabeleceu o caminho em todas as situações do universo. A centralidade em Deus é tudo. Esse é o Caminho. Em Jesus “foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). O apóstolo João escreveu: “Todas as coisas foram feitas por intermédio dele, e, sem ele, nada do que foi feito se fez” (Jo 1.3). Jesus sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3). Tudo converge para Cristo (Ef 1.10).

A confusão interior cessa quando andamos no Caminho. Quando assim acontece, nosso deserto conhece a alegria, enche-se de flores perfumadas, a glória de Deus se torna conhecida, as mãos frouxas se fortalecem, os joelhos vacilantes se firmam. Depois disso podemos animar os desalentados de coração e falar-lhes da salvação de Deus. Quando andamos no Caminho o mundo se descortina novo diante de nós, passamos a ouvir o que antes não ouvíamos, a vibração nos motiva, o silêncio da tristeza é quebrado, e a sequidão dar lugar ao manancial. Tudo isso por andar no bom Caminho, o Caminho Santo. Só não anda por esse caminho quem preferir a imundícia, pois ele é acessível a todos os que querem ser remidos e resgatados da confusão interior gerada por se andar no próprio caminho (Is 53.6). Hoje é o dia oportuno para andar no Caminho com alegria eterna, de onde fugirão a tristeza e o gemido dos desgarrados (Is 35).

Antonio Francisco - Cuiabá, 24 de fevereiro de 2011 - Voltar para Um novo caminho.

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