28 de nov de 2010

Semeando e colhendo

Acho interessante como a Bíblia usa as coisas bem conhecidas para nos ensinar aquelas que ainda não conhecemos. O Novo Testamento usa o princípio da semeadura e da colheita. Esse princípio se aplica a tudo na vida, seja na agricultura, biologia, física, moral e na espiritualidade. O texto de Gálatas 6.6-10, especialmente o versículo 7, mostra isso de uma forma até picante. Vejamos a passagem bíblica:

“Mas aquele que está sendo instruído na palavra faça participante de todas as coisas boas aquele que o instrui. Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará. Porque o que semeia para a sua própria carne da carne colherá corrupção; mas o que semeia para o Espírito do Espírito colherá vida eterna. E não nos cansemos de fazer o bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não desfalecermos. Por isso, enquanto tivermos oportunidade, façamos o bem a todos, mas principalmente aos da família da fé”.

Sempre colhemos o que semeamos; colhemos sempre mais do que o que semeamos; e colhemos numa época diferente da que semeamos. A quantidade da colheita depende da quantidade da semeadura. Isso se aplica à vida tanto quanto se aplica a agricultura. Isso deve acontecer de forma disposta e alegre:

“E isto afirmo: aquele que semeia pouco pouco também ceifará; e o que semeia com fartura com abundância também ceifará. Cada um contribua segundo tiver proposto no coração, não com tristeza ou por necessidade; porque Deus ama a quem dá com alegria” (2Co 9.6-7).

Vejamos inicialmente o versículo 7. Dele deriva todo o contexto da passagem em voga. O verso nos alerta que de Deus não se zomba. Ou seja, ninguém torce o nariz para Deus sem as devidas implicações. Ninguém pode brincar, desprezar, e passar a perna em Deus. Podemos enganar a nós mesmos, mas não podemos enganar a Deus. Ninguém escapa da lei da semeadura e da colheita.

Paulo aplica o princípio “semeando e colhendo” a três esferas da experiência cristã. Ele opera nessas áreas de forma prática. Por isso, devemos atentar para isso.

1. Semeando na vida de quem nos instrui na palavra de Deus (v. 6)

Toda pessoa que recebe instrução cristã, seja em particular ou fazendo parte da comunidade, deve ajudar a sustentar o seu pastor e mestre. O pastor pode esperar ser sustentado pela comunidade dos irmãos na fé. Ele semeia a boa semente da Palavra de Deus e colhe o sustento. As Escrituras Sagradas assim ensinam:

“Digno é o trabalhador do seu salário” (Lc 10.7).

“Se nós vos semeamos as coisas espirituais, será muito recolhermos de vós bens materiais?” (1Co 9.11).

“Assim ordenou também o Senhor aos que pregam o evangelho que vivam do evangelho” (1Co 9.14).

“Devem ser considerados merecedores de dobrados honorários os presbíteros que presidem bem, com especialidade os que se afadigam na palavra e no ensino” (1Tm 5.17).

Alguém poderia dizer: “Então, temos que pagar para receber o ensino da Bíblia?”. Não. Note que a palavra bíblica no texto que estamos analisando é “participante” (Gl 6.6), que tem o sentido de comunhão. O pastor partilha as coisas espirituais com a comunidade, e esta partilha com ele as coisas materiais.

2. Semeando em nossas próprias vidas (v. 8)

Aqui a vida é comparada a uma propriedade rural e a carne e o Espírito são dois campos em que nós semeamos. Cabe a cada um de nós escolhermos onde e o que semear – na carne ou no Espírito. A Bíblia diz: “andai no Espírito e jamais satisfareis à concupiscência da carne” (Gl 5.16). O Espírito Santo é comparado ao caminho pelo qual devemos andar e ao campo no qual devemos semear (Gl 6.8). A vida cristã é também comparada a um campo de batalha, e a carne e o espírito são dois permanentes combatentes um contra o outro: “Porque a carne milita contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne, porque são opostos entre si; para que não façais o que, porventura, seja do vosso querer” (Gl 5.17).

A carne refere-se à nossa natureza caída, com suas paixões e concupiscências (Gl 5.24). A carne deve ser controlada; na verdade ela deve ser morta (Cl 3.5), caso contrário, ela se manifestará em obras más em nossa vida: “prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas” (Gl 5.19-21). Os que vivem nessas práticas não herdarão o reino de Deus. Semear na carne é uma escolha. Crucificamos a carne ou semeamos nela. A santidade é uma colheita. A decisão é nossa.

Semear para o Espírito é o mesmo que andar no Espírito (Gl 5.16, 25). Devemos buscar e pensar nas coisas lá do alto onde Cristo vive (Cl 3.1-2). Quem semeia no Espírito colhe o fruto do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5.22-23).

Fica claro que semear para a carne resulta em colher corrupção; e que semear para o Espírito resulta em colher do Espírito vida eterna (Gl 6.8).

3. Semeando na vida dos outros (vs. 9-10)

Fazer o bem não é tão natural quanto deveria ser. Por isso, o texto diz para não cansarmos e não desfalecermos, porque no tempo devido colheremos os resultados de nossa semeadura. Isso me faz lembrar o Eclesiastes que diz: “Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete e ainda com oito, porque não sabes que mal sobreviverá à terra” (Ec 11.1-2).

Devemos aproveitar as oportunidades que temos para fazer o bem (Cl 4.5). O bem que devemos fazer deve ser feito a todos. Se nosso inimigo tiver fome, devemos dar-lhe de comer; se tiver sede, devemos dar-lhe de beber (Rm 12.20). Jesus disse: “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mt 5.44). Tudo isso quer dizer que devemos fazer o bem a todas as pessoas indistintamente.

Contudo, é interessante observar o final do verso 10 que diz para o bem ser feito principalmente aos da família da fé. Ou seja, em qualquer circunstância em que for necessário ou possível fazer o bem, não devemos nos omitir. Mas, se podemos escolher por onde devemos começar, é na família da fé, entre os irmãos da comunidade. Isso pode ser ainda mais específico quando lemos em outro lugar: “Ora, se alguém não tem cuidado dos seus e especialmente dos da própria casa, tem negado a fé e é pior do que o descrente” (1Tm 5.8). Se alguém não cuida de sua própria família, como cuidará da igreja, e ainda mais, como poderá fazer o bem a todos?

Conclusão

Consideramos três áreas onde aplicar o princípio de que “aquilo que o homem semear, isso também colherá”. Na primeira a semente é a Palavra de Deus, semeada pelos mestres nas mentes e corações da comunidade. Na segunda, a semente são nossos pensamentos e atos, semeando no campo da carne ou do Espírito. Na terceira, a semente são as boas obras, semeadas nas vidas de outras pessoas na comunidade.

Antonio Francisco - Cuiabá, 28 de novembro de 2010 - Voltar para Um novo caminho.

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