19 de out de 2010

Reunindo os filhos de Deus

Enquanto visitava uma família amiga com minha esposa, a conversa que tivemos me fez lembrar de uma passagem bíblica quando o Sinédrio (o mais alto tribunal religioso dos judeus) planejava tirar a vida de Jesus. O sumo sacerdote Caifás profetizou naquela ocasião que Jesus morreria “para reunir em um só corpo os filhos de Deus, que andam dispersos” (Jo 11.52). Aquela foi uma profecia exata do que aconteceria em todo o mundo e acontece hoje como fruto da cruz.

O povo que Deus escolheu viveu disperso por várias ocasiões na história. Abraão, o pai da nação judaica viveu disperso desde o seu chamado divino. Muitos anos depois, Jacó desceu para o Egito com setenta pessoas e lá se tornaram uma multidão. Com a divisão do reino, Israel foi levado para o cativeiro da Assíria e Judá para a Babilônia. Ezequiel profetizou: “Saberão que eu sou o Senhor, quando eu os dispersar entre as nações e os espalhar pelas terras” (Ez 12.15). O histórico do povo de Israel é feito de dispersões. Mas, as pessoas não deixam de ser filhas de Deus pelo fato de estarem dispersas. O filho pródigo nunca deixou de ser filho, mesmo em terras distantes. Isso ilustra que os filhos de Deus estão dispersos por toda a terra, mas estão se reunindo à medida que criam consciência do temor a Deus. A Bíblia diz que há uma ardente expectativa da criação aguardando a revelação dos filhos de Deus.

Pouco antes de ser preso e morto, Jesus lembrou aos discípulos a profecia de Zacarias sobre ele e os seus: “Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho ficarão dispersas” (Mt 26.31). Durante aquela semana, ele disse aos discípulos: “Eis que vem a hora e já é chegada, em que sereis dispersos...” (Jo 16.32). No início da igreja houve uma perseguição aos cristãos em Jerusalém e eles foram dispersos (At 8.1-4). Pedro escreveu aos cristãos dispersos por vários lugares (1Pe 1.1). Tudo isso mostra que os filhos de Deus não estão categorizados por siglas eclesiásticas, instituições evangélicas, denominações históricas, ou controles estatísticos de qualquer IBGE.

No início de meu ministério pastoral percebi que o número de “crentes desviados” (dispersos) era maior que o número de crentes que estavam dentro das igrejas. É difícil você falar com alguém hoje que já não tenha tido uma experiência com alguma igreja evangélica. O problema é que muita gente não quer nem saber de igreja. Por que será? As igrejas têm criado uma caricatura feia de Deus para as pessoas, de modo que muitos têm uma imagem de Deus completamente contrária ao que diz a Bíblia. As pessoas estão crendo num deus criado à imagem e semelhança das igrejas evangélicas doentes. A Bíblia diz que a grande multidão ouvia Jesus com prazer (Mc 12.37). Então, por que tanta gente se sente rejeitada na e da igreja? Alguma coisa está errada. O "evangelho" das igrejas não está atraindo as pessoas, pelo contrário, está repelindo as pessoas para longe do conhecimento da palavra viva.

Cada vez mais me conscientizo que as pessoas não têm problema com Jesus, mas com a chamada "igreja evangélica". Jesus disse: “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, e eu vos aliviarei” (Mt 11.28), mas muita gente não tem encontrado seu ninho, seu pouso e seu lugar nos cultos de muitas igrejas. Muitos têm sido considerados “indignos” de participar da igreja, por isso são rejeitados, excluídos e andam dispersos por toda parte. Esses são chamados de “desviados”. Por causa de experiências de rejeição nas igrejas, muitos se declaram ateus e não querem mais nem ouvir falar de Deus, de Bíblia, de Jesus. O Jesus dos evangelhos é manso e não lança fora ninguém que vai a ele. Mas me alegro em saber que nada restringe a ação do Espírito Santo de Deus em converter pessoas das trevas para a luz. Independentemente da condição em que a pessoa esteja, local, ou qualquer situação imaginária; Deus atende a todo aquele que em qualquer lugar invoca o nome do Senhor. As "igrejas evangélicas" estão ficando tão alienadas do Evangelho, que, para andar com Jesus, você tem que se dispersar da igreja formal, institucional.

Quando Davi era perseguido pelo rei Saul e andava disperso por toda parte, “ajuntaram-se a ele todos os homens que se achavam em aperto, e todo homem endividado, e todos os amargurados de espírito, e ele se fez chefe deles; e eram com ele uns quatrocentos homens” (1Sm 22.2). Veja que coisa interessante: Davi formou seu exército com os marginalizados. Isso parece com o ministério de Jesus; ele comia com pecadores e publicanos. Foi chamado de amigo de pecadores (Lc 15.1-2; Mt 11.19). Você acha que as igrejas são amigas dos pecadores? Os marginalizados da sociedade e os amargurados de espírito encontram guarida nas igrejas evangélicas? Jesus disse que os sãos não precisam de médico e sim os doentes. Ele não veio chamar justos, mas pecadores ao arrependimento. As igrejas fazem triagem moral para aceitar as pessoas em seu convívio, de modo que muitos não passam nos testes e ficam de lado, às vezes, dentro da própria igreja. É gente que não pode ser batizada e participar da ceia do Senhor porque não é casada civilmente, tem algum vício, ou coisa semelhante. Jesus não procedia assim com os pecadores. Ele acolhia e acolhe a todos.

A Comunidade do Caminho é feita de gente normal, comum, simples, pecadora. Você só precisa ser o que você é para que possa ser o que Deus quer que você seja. Aqui há lugar para todos os pródigos e também para os irmãos mais velhos. Queremos ser tão somente uma expressão visível do que pode ser a igreja de Jesus, uma comunidade de amigos que se amam, tolerando, respeitando, aceitando, incentivando, perdoando, compartilhando, exortando, corrigindo, instruindo, e educando no Evangelho, para que todos sejamos habilitados para toda boa obra. Temos plena consciência que a Igreja é de Deus e não nossa, e que ele mesmo cuida dos seus do seu modo, no seu tempo, como ele quer. Não tentamos fazer a igreja crescer nem defendemos uma bandeira eclesiástica, porque já entendemos que nossa parte é viver o Evangelho, perseverando na doutrina dos apóstolos, e na comunhão, no partir do pão e nas orações, vivendo cada dia no temor do Senhor, abertos para a ação do Espírito Santo, vivendo em comunhão e louvando a Deus. Assim, cremos e vemos Deus acrescentar os seus filhos. 

Aqui somos irmãos e não juízes uns dos outros. Ajudamos uns aos outros sem privar o direito de cada um ser quem é de fato. Não amamos apenas os certinhos. Aqui não tem hierarquia, tem fraternidade e compromisso em caminhar com Jesus. Entre nós as pessoas caem, e todos podem cair, mas se levantam, pois é assim que vivem os justos (Pv 24.16). Aqui todos sujam os pés na caminhada, mas lavamos os pés uns dos outros (Jo 13). Andamos com os pés no chão, não com a cabeça nas nuvens. Encaramos a vida como ela é e não como gostaríamos que ela fosse. É assim que andamos, em novidade de vida (Rm 6.4). Saia da dispersão e venha para a comunhão dos filhos de Deus. Procure congregar ou se encontrar com pessoas com quem você possa compartilhar sua vida sem ser rejeitado por isso. A igreja não é um sistema, um prédio, um clube de certinhos que dizem crer em Deus. Onde dois ou três estiverem reunidos em nome de Jesus, ali está a igreja. Pode ser na sala ou na garagem de sua casa, pode ser na quadra de esportes do colégio, no pátio da empresa onde você trabalha, ou em qualquer outro local. Leia a Bíblia, de preferência o Novo Testamento. Leia só, com sua família, e convide outros para a leitura. Você pode começar hoje mesmo a reunir os filhos de Deus que estão dispersos.

Antonio Francisco - Cuiabá, 19 de outubro de 2010 - Voltar para Um novo caminho.

4 comentários:

Muito interessante isso que escreveu. Percebo agora com mais clareza quanto às igrejas, ditas evangélicas funcionam. Com o tempo Jesus acaba não sendo o foco principal e, sim as reuniões, os cultos, o compromisso de ter que participar de tudo o que alguém planeja, sem ao menos vc sentir vontade de participar, mas é necessário que se compareça. Percebo ainda, que o amor é uma condição, enquanto você não pisa na bola, é aceito em nosso meio, caso contrário, você será excluído. Isso é muito triste!
Mas agradeço a Deus, por ajudar-me a ter esse entendimento.
Não precisamos viver de reuniões, precisamos viver de relacionamentos.

Simone, que comentário lindo! Que bom ver essa percepção acurada que você tem. É isso mesmo.

Vamos firmes nesta caminhada!!!
Rosângela

Eu mesmo gosto de assistir bons filmes, ouvir uma boa música e outras coisas mas sempre em comunhão com aqueles com quem me relaciono respeitando o gosto e os desejos de cada um.
Fico feliz de fazer parte de uma comunidade que me aceita do jeito que eu sou. Por mais pecador que eu possa ser e sei que Jesus Cristo já me aceitou o resto é com Ele.
DE:
Josymar